EFF diz que nova criptografia da Ring ainda depende de confiança na empresa
O padrão TAKE limita por quanto tempo a Ring mantém cópias das chaves, mas não oferece a mesma separação técnica da criptografia de ponta a ponta.
R42 / RESUMO
A EFF considera o TAKE uma melhora na proteção padrão das câmeras Ring, mas afirma que o sistema ainda exige confiança na empresa porque a nuvem recebe chaves e processa vídeos temporariamente.
PONTOS-CHAVE
- O TAKE está sendo distribuído gradualmente e será a opção padrão da Ring quando o lançamento global terminar.
- As chaves de conteúdo mudam a cada cinco minutos, e a cópia mantida pela Ring é apagada em uma janela móvel de 24 horas.
- A EFF reconhece avanço sobre a configuração atual, mas destaca que o TAKE não equivale à criptografia de ponta a ponta.
- A Ring afirma que não poderá entregar chaves nem vídeos descriptografados, enquanto a EFF pede auditoria externa mais ampla.
A Electronic Frontier Foundation publicou nesta sexta-feira, 11 de setembro, uma avaliação técnica do TAKE, novo padrão de criptografia de vídeos da Ring. A entidade de direitos digitais considera a mudança um avanço sobre a proteção padrão atual, mas sustenta que ela continua distante da criptografia de ponta a ponta porque os serviços da empresa ainda recebem chaves e processam gravações por períodos limitados.
A Ring anunciou o Throw Away the Key Encryption, ou TAKE, em 26 de agosto. A distribuição começou gradualmente em setembro e a arquitetura deve se tornar o padrão mundial quando o lançamento terminar. A opção de criptografia de ponta a ponta continuará disponível nos aparelhos compatíveis. O ponto central da novidade é tentar preservar recursos de nuvem ao mesmo tempo que reduz o período em que a empresa consegue abrir uma gravação.
Como o TAKE administra as chaves
No padrão anterior, os vídeos já eram criptografados durante a transmissão e no armazenamento, mas os serviços da Ring podiam descriptografá-los para executar funções contratadas pelo usuário. No TAKE, cada câmera usa chaves de conteúdo que mudam a cada cinco minutos. Uma cópia fica temporariamente sob gestão de um serviço executado em AWS Nitro Enclaves, ambientes isolados que, segundo a Ring, restringem o acesso por controles técnicos e não mantêm armazenamento persistente.
O documento técnico da empresa estabelece uma janela móvel de 24 horas. Quando cada chave ultrapassa esse limite, a Ring afirma apagar o material necessário para reconstruí-la e não manter cópias de segurança. Se o cliente reproduzir um vídeo antigo ou ativar um recurso que exija novo processamento, o aplicativo envia a chave correspondente para aquela sessão. A empresa diz que esse envio ocorre apenas após uma ação do usuário e que a nuvem não pode solicitar a chave por iniciativa própria.
Há uma diferença de implementação entre gerações de hardware. Câmeras mais novas e compatíveis criptografam o vídeo antes de ele deixar o aparelho e permitem escolher entre TAKE e criptografia de ponta a ponta. Modelos antigos fazem a criptografia quando o conteúdo chega à infraestrutura da Ring e suportam apenas TAKE. A mudança vale para clientes com aparelhos compatíveis independentemente de assinatura, embora a disponibilidade de recursos varie durante a implantação.
Por que a EFF considera a proteção incompleta
A EFF reconhece que apagar as cópias das chaves limita o acesso permanente da Ring ao histórico. A crítica é que, durante as primeiras 24 horas, os serviços de nuvem recebem as chaves necessárias e trabalham com o vídeo descriptografado em memória. Para gravações antigas, uma ação do cliente pode fornecer novamente a chave. Na avaliação da entidade, essa arquitetura ainda exige confiança no software e nas práticas operacionais controladas pela própria empresa.
A distinção importa porque a criptografia de ponta a ponta mantém as chaves apenas nos dispositivos autorizados. Nesse modo, a Ring armazena o vídeo cifrado, mas não consegue abri-lo, nem mesmo temporariamente. A contrapartida é a perda de usuários compartilhados e de funções que dependem de processamento remoto, como busca e descrição de vídeos. O TAKE oferece mais conveniência; a criptografia de ponta a ponta reduz mais radicalmente o acesso do fornecedor.
Pedidos de autoridades e verificação externa
Em resposta à EFF, a Ring declarou que, pelo desenho do TAKE, não poderá fornecer chaves ou conteúdo descriptografado e entregará apenas arquivos cifrados diante de uma ordem jurídica válida. A entidade não afirma que a empresa já retenha esse material. Seu argumento é prospectivo: como a Ring controla o código e recebe chaves temporárias, uma ordem poderia tentar obrigá-la a alterar a operação para preservar chaves ou vídeos futuros. Segundo a EFF, a empresa não respondeu diretamente a essa hipótese.
A Ring também informou que componentes críticos passaram por testes independentes antes do lançamento e que estuda outras formas de revisão externa. A EFF pede uma auditoria mais ampla da infraestrutura. Até que haja verificação pública adicional, a conclusão prática é menos absoluta do que as duas posições sugerem: o TAKE reduz a exposição em relação ao padrão anterior, mas não elimina o elo de confiança no provedor. Para quem prefere a separação técnica mais forte e aceita abrir mão de funções de nuvem, a criptografia de ponta a ponta continua sendo a opção mais restritiva.
Gabriel Silva
Responsável pela apuração e redação desta matéria na Rota42.
R42 / FAQ
O que é o TAKE da Ring?
TAKE significa Throw Away the Key Encryption. É uma arquitetura na qual vídeos recebem chaves rotativas, a Ring mantém uma cópia temporária para recursos de nuvem e apaga essa cópia em até 24 horas.
TAKE é o mesmo que criptografia de ponta a ponta?
Não. No TAKE, serviços da Ring podem receber chaves e processar vídeos temporariamente. Na criptografia de ponta a ponta, a empresa não recebe as chaves de descriptografia.
Quando o TAKE será ativado?
A distribuição começou de forma gradual em setembro de 2026. A Ring diz que o TAKE se tornará o padrão para todos os clientes quando o lançamento global estiver concluído.
Câmeras Ring antigas terão TAKE?
Segundo o documento técnico da Ring, modelos antigos podem usar TAKE com criptografia na entrada da nuvem, mas não oferecem criptografia de ponta a ponta. Modelos compatíveis fazem a criptografia no próprio aparelho.
Qual opção oferece mais privacidade?
A criptografia de ponta a ponta oferece maior separação técnica porque a Ring não recebe as chaves. Em troca, usuários compartilhados e recursos que exigem processamento na nuvem ficam indisponíveis.