EUA pedem que plataformas americanas fiquem fora da nova lei digital australiana
Washington afirma que a proposta pode afetar a liberdade de expressão fora da Austrália; governo Albanese diz que a minuta devolve escolhas aos usuários.
R42 / RESUMO
Os Estados Unidos pediram que plataformas americanas sejam excluídas da proposta australiana de dever de cuidado digital. A minuta obrigaria redes sociais a oferecer uma escolha entre recomendações personalizadas e um feed limitado às contas seguidas, além de impor medidas de proteção a menores. O texto ainda está em consulta e não foi aprovado pelo Parlamento.
PONTOS-CHAVE
- O pedido dos Estados Unidos foi apresentado formalmente durante a consulta pública australiana.
- A proposta exigiria que redes sociais oferecessem escolha entre feed personalizado e conteúdo de contas seguidas.
- Serviços digitais também teriam deveres de prevenção de riscos para usuários menores de 18 anos.
- A minuta ainda não foi apresentada nem aprovada pelo Parlamento australiano.
- As multas previstas podem chegar a 109,2 milhões de dólares australianos.
O governo dos Estados Unidos pediu formalmente que plataformas americanas sejam excluídas da proposta australiana de dever de cuidado digital. A manifestação, publicada em 22 de setembro durante a consulta sobre a minuta, argumenta que as novas obrigações podem alterar o alcance de conteúdos fora da Austrália e criar riscos à liberdade de expressão.
A intervenção atinge o núcleo do projeto apresentado pelo governo do primeiro-ministro Anthony Albanese em 8 de setembro. A iniciativa, chamada “My Feed, My Way”, pretende obrigar redes sociais a oferecer uma escolha clara sobre o feed padrão: recomendações personalizadas ou conteúdo restrito às contas e aos criadores que cada pessoa decidiu seguir.
Esse confronto não significa que uma proibição ou uma nova regra já esteja valendo. O documento australiano ainda é uma minuta em consulta e não foi aprovado pelo Parlamento. Do mesmo modo, a alegação de censura representa a posição do governo americano, não uma conclusão judicial ou um efeito confirmado da proposta.
O que Washington contesta
A resposta americana questiona como a Austrália definirá conceitos como “dano previsível” e risco, quem julgará esses casos e quais recursos estarão disponíveis para plataformas e usuários. Washington sustenta que exigências amplas podem incentivar empresas a remover ou reduzir a distribuição de material lícito para evitar penalidades.
O governo dos Estados Unidos também afirma que plataformas globais normalmente desenvolvem produtos em grande escala, e não como sistemas totalmente separados para cada país. Por isso, uma mudança obrigatória no desenho de feeds australianos poderia, segundo a manifestação, repercutir na experiência de usuários de outras jurisdições. Trata-se de uma projeção apresentada pelos Estados Unidos; a consulta não demonstra que esse efeito ocorrerá necessariamente.
Além da manifestação americana, a Business Software Alliance pediu ajustes diferentes. A associação recomendou excluir serviços prestados apenas entre empresas, limitar a responsabilidade a pessoas com controle cotidiano sobre o serviço e ampliar o período de transição. O conjunto de respostas mostra que a disputa envolve tanto moderação de conteúdo quanto escopo técnico e responsabilidade corporativa.
O que a Austrália propõe
A minuta exigiria que redes sociais notificassem usuários novos e atuais sobre a opção de feed. Pessoas com mais de 16 anos poderiam aceitar recomendações personalizadas ou escolher uma experiência baseada nas contas que seguem. A proposta também alcança jogos online, aplicativos, serviços de mensagens e chatbots nas obrigações destinadas a proteger menores de 18 anos contra recursos de design potencialmente nocivos e conteúdos específicos.
Entre os riscos enumerados pelo governo australiano estão pornografia, promoção de transtornos alimentares, hostilidade contra mulheres, glorificação de crimes ou desafios perigosos e material capaz de provocar sofrimento mental grave, como abuso e assédio. Plataformas teriam de documentar suas medidas e verificar se continuam eficazes.
A eSafety Commissioner ficaria responsável pela fiscalização. O governo afirma que o descumprimento poderia resultar em multas de até 109,2 milhões de dólares australianos. Também seriam ampliados mecanismos de remoção para aplicativos e sites que criam imagens íntimas falsas.
Uma disputa sobre produto, não apenas conteúdo
A resposta australiana é que a proposta pretende devolver escolhas aos usuários, e não controlar opiniões políticas. Essa diferença revela o ponto central do debate: a minuta regula tanto aquilo que circula quanto a maneira como plataformas organizam e recomendam esse conteúdo.
Se o texto mantiver a obrigação de escolha do feed, empresas terão de demonstrar que a alternativa não personalizada é real, fácil de encontrar e respeitada depois da seleção. Se plataformas americanas forem excluídas, por outro lado, a regra perderá alcance prático sobre grande parte do mercado de redes sociais. Ambas são consequências prováveis, mas ainda dependem da redação final e da votação parlamentar.
A controvérsia amplia uma agenda australiana já marcada por discussões sobre privacidade e desenho de produtos digitais, incluindo a avaliação de restrições a óculos inteligentes em prédios públicos. O novo projeto vai além de um dispositivo específico: ele testa até onde um país pode exigir mudanças no funcionamento de plataformas usadas globalmente.
Gabriel Silva
Responsável pela apuração e redação desta matéria na Rota42.
R42 / FAQ
O que os Estados Unidos pediram à Austrália?
O governo americano pediu que plataformas dos Estados Unidos sejam excluídas das obrigações propostas e que a Austrália retire exigências consideradas capazes de suprimir conteúdo com base em critérios amplos de segurança.
A nova lei digital australiana já está em vigor?
Não. O texto é uma minuta submetida a consulta. O governo australiano pretende apresentar um projeto ao Parlamento ainda em 2026, onde ele poderá ser debatido e alterado.
O que mudaria nos feeds das redes sociais?
As plataformas teriam de oferecer a usuários com mais de 16 anos uma escolha clara entre recomendações personalizadas e um feed formado pelas contas e criadores que eles decidiram seguir.
A proposta se limita às redes sociais?
Não. O dever de cuidado alcançaria outros serviços digitais, incluindo jogos online, aplicativos, mensageiros e chatbots, especialmente nas obrigações de proteção a menores.
Qual seria a penalidade por descumprimento?
Segundo o governo australiano, o descumprimento do dever de cuidado poderia gerar multas de até 109,2 milhões de dólares australianos, sob fiscalização da eSafety Commissioner.