Bill C-22 avança no Canadá sob alertas de saída de serviços de privacidade
Projeto chegou à segunda leitura no Senado após ganhar proteção explícita à criptografia, mas Psiphon e Signal dizem que as obrigações técnicas continuam incompatíveis com seus sistemas.
R42 / RESUMO
O Bill C-22 está na segunda leitura no Senado do Canadá. O governo afirma que o texto moderniza o acesso legal e protege criptografia ponta a ponta, mas Psiphon e Signal sustentam que obrigações técnicas e sigilosas ainda podem ser incompatíveis com software aberto e arquiteturas que não guardam as chaves dos usuários.
PONTOS-CHAVE
- O Bill C-22 está na segunda leitura no Senado; o debate mais recente registrado ocorreu em 8 de outubro de 2026.
- A Câmara adicionou uma salvaguarda para impedir que provedores sejam obrigados a descriptografar dados quando não possuem as chaves.
- Psiphon começou a planejar uma possível mudança para fora do Canadá caso o texto passe sem novas alterações.
- Signal, NordVPN e outros serviços também apresentaram alertas condicionais, não anúncios definitivos de retirada.
- O conflito central envolve a possibilidade de impor capacidades sigilosas a projetos cujo código e modelo de confiança são públicos.
O projeto de acesso legal Bill C-22 avançou para a segunda leitura no Senado do Canadá em meio a uma disputa que já ultrapassa a formulação clássica de “privacidade contra segurança”. A tramitação oficial registra debate em 8 de outubro de 2026. Ao mesmo tempo, a canadense Psiphon começou a preparar uma eventual transferência de suas operações para fora do país caso o texto seja aprovado sem novas mudanças, enquanto Signal e outros serviços mantêm alertas semelhantes.
Nenhuma dessas empresas anunciou uma retirada concluída. As declarações são condicionais: a Psiphon diz que deixaria o Canadá se as obrigações forem incompatíveis com seu modelo aberto, e a Signal afirma que prefere sair de um mercado a construir vigilância em seu serviço. Essa distinção importa porque o projeto ainda pode ser alterado no Senado.
O que o Bill C-22 pretende fazer
Apresentado em 12 de março, o Bill C-22 cria um marco para que provedores de serviços eletrônicos possam atender ordens legais de acesso. O governo canadense afirma que polícia e o Serviço Canadense de Inteligência de Segurança enfrentam lacunas técnicas mesmo quando dispõem de mandado ou ordem de produção. Também sustenta que o Canadá está atrás de seus parceiros do Five Eyes e de outras democracias em instrumentos desse tipo; essa é uma justificativa oficial do Executivo, não uma conclusão independente deste artigo.
Depois das críticas de empresas e especialistas, a Câmara acrescentou uma proteção explícita: nenhuma obrigação deve ser interpretada como exigência para descriptografar informações quando o provedor não forneceu a criptografia ou não possui os meios necessários. O governo apresenta essa redação como proteção à criptografia ponta a ponta. A retenção prevista de certos metadados também foi reduzida de um ano para seis meses antes da aprovação na Câmara, segundo a cobertura da tramitação.
A mudança, porém, não encerrou a controvérsia. Apple e Meta já haviam alertado que poderes amplos, ordens sigilosas e requisitos técnicos poderiam criar caminhos para enfraquecer sistemas seguros. O governo rejeita essa leitura e diz que o projeto não exige vulnerabilidades sistêmicas.
Por que a Psiphon vê um problema diferente
A Psiphon nasceu em 2006 como projeto do Citizen Lab e hoje informa cerca de 20 milhões de usuários mensais. Sua tecnologia ajuda pessoas em países com bloqueios estatais a alcançar a internet aberta. A própria política de privacidade identifica a empresa como uma corporação canadense sediada em Ontário.
O ponto central de sua objeção não é apenas quem possui uma chave de criptografia. A empresa publica o código de sua plataforma. Se fosse obrigada a criar uma capacidade de acesso e simultaneamente mantê-la em segredo, pesquisadores e governos hostis poderiam encontrar a alteração. Para a Psiphon, uma porta secreta em código público deixaria de ser secreta e se tornaria uma vulnerabilidade publicada.
Esse conflito também apareceu no debate do Senado, no qual parlamentares citaram Psiphon, Signal e Mozilla Firefox como exemplos de projetos de código aberto que podem enfrentar dificuldades para cumprir o texto. Senadores reconheceram que definições amplas de provedores, escala empresarial e efeitos sobre criptografia ainda exigem exame detalhado.
O que muda para usuários
No curto prazo, nada muda no funcionamento de Signal, Psiphon ou VPNs no Canadá: o Bill C-22 ainda não é lei. A consequência imediata é regulatória. O Senado precisa decidir se a proteção à descriptografia resolve apenas a posse das chaves ou se também impede ordens que alterem a arquitetura dos serviços.
A inferência editorial é que o caso canadense mede algo mais amplo: se um país pode exigir capacidade de acesso sem transformar transparência técnica em risco. Para serviços proprietários, parte da implementação pode permanecer invisível. Em software aberto usado contra censura, o mesmo sigilo pode ser tecnicamente impraticável e prejudicar usuários fora do Canadá. O resultado dependerá do texto final, de seus regulamentos e da supervisão aplicada às ordens, não apenas da intenção declarada por governo ou empresas.
R42 / FONTES CONSULTADAS
Referências usadas para verificar fatos e contextualizar esta matéria.
-
Debates, Issue 92 (October 8, 2026)
Senate of Canada
-
Lawful access
Government of Canada
-
Bill C-22, An Act respecting lawful access — First Reading
Parliament of Canada
-
C-22 (45-1) — LEGISinfo
Parliament of Canada
-
Privacy Policy — Psiphon VPN
Psiphon
Gabriel Silva
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R42 / FAQ
O Bill C-22 já virou lei no Canadá?
Não. Em 17 de outubro de 2026, o projeto estava na segunda leitura no Senado. Ele ainda precisa concluir a tramitação parlamentar e receber sanção antes de entrar em vigor.
O projeto obriga empresas a quebrar criptografia ponta a ponta?
O governo afirma que não. Uma emenda diz que um provedor não pode ser obrigado a descriptografar informações se não forneceu a criptografia ou não possui os meios necessários. Empresas e especialistas, porém, argumentam que outras obrigações técnicas do texto ainda podem enfraquecer arquiteturas seguras.
Psiphon e Signal já deixaram o Canadá?
Não. Psiphon disse ter iniciado planos de contingência para transferir operações se o projeto for aprovado sem mudanças. Signal afirmou que deixaria um mercado antes de alterar seu serviço para vigiar usuários. São alertas condicionais, não retiradas concluídas.
Por que software aberto é importante nesse debate?
Em projetos abertos, alterações relevantes podem ser examinadas publicamente. A Psiphon argumenta que uma capacidade de acesso escondida não permaneceria secreta em seu código e se transformaria em uma vulnerabilidade conhecida, afetando a confiança de usuários que contornam censura.