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R42 / Cultura digital / 00239

Bill C-22 avança no Canadá sob alertas de saída de serviços de privacidade

Projeto chegou à segunda leitura no Senado após ganhar proteção explícita à criptografia, mas Psiphon e Signal dizem que as obrigações técnicas continuam incompatíveis com seus sistemas.

17.10.26 Gabriel Silva 3 MIN
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R42 / RESUMO

O Bill C-22 está na segunda leitura no Senado do Canadá. O governo afirma que o texto moderniza o acesso legal e protege criptografia ponta a ponta, mas Psiphon e Signal sustentam que obrigações técnicas e sigilosas ainda podem ser incompatíveis com software aberto e arquiteturas que não guardam as chaves dos usuários.

PONTOS-CHAVE

  1. 01O Bill C-22 está na segunda leitura no Senado; o debate mais recente registrado ocorreu em 8 de outubro de 2026.
  2. 02A Câmara adicionou uma salvaguarda para impedir que provedores sejam obrigados a descriptografar dados quando não possuem as chaves.
  3. 03Psiphon começou a planejar uma possível mudança para fora do Canadá caso o texto passe sem novas alterações.
  4. 04Signal, NordVPN e outros serviços também apresentaram alertas condicionais, não anúncios definitivos de retirada.
  5. 05O conflito central envolve a possibilidade de impor capacidades sigilosas a projetos cujo código e modelo de confiança são públicos.

O projeto de acesso legal Bill C-22 avançou para a segunda leitura no Senado do Canadá em meio a uma disputa que já ultrapassa a formulação clássica de “privacidade contra segurança”. A tramitação oficial registra debate em 8 de outubro de 2026. Ao mesmo tempo, a canadense Psiphon começou a preparar uma eventual transferência de suas operações para fora do país caso o texto seja aprovado sem novas mudanças, enquanto Signal e outros serviços mantêm alertas semelhantes.

Nenhuma dessas empresas anunciou uma retirada concluída. As declarações são condicionais: a Psiphon diz que deixaria o Canadá se as obrigações forem incompatíveis com seu modelo aberto, e a Signal afirma que prefere sair de um mercado a construir vigilância em seu serviço. Essa distinção importa porque o projeto ainda pode ser alterado no Senado.

O que o Bill C-22 pretende fazer

Apresentado em 12 de março, o Bill C-22 cria um marco para que provedores de serviços eletrônicos possam atender ordens legais de acesso. O governo canadense afirma que polícia e o Serviço Canadense de Inteligência de Segurança enfrentam lacunas técnicas mesmo quando dispõem de mandado ou ordem de produção. Também sustenta que o Canadá está atrás de seus parceiros do Five Eyes e de outras democracias em instrumentos desse tipo; essa é uma justificativa oficial do Executivo, não uma conclusão independente deste artigo.

Depois das críticas de empresas e especialistas, a Câmara acrescentou uma proteção explícita: nenhuma obrigação deve ser interpretada como exigência para descriptografar informações quando o provedor não forneceu a criptografia ou não possui os meios necessários. O governo apresenta essa redação como proteção à criptografia ponta a ponta. A retenção prevista de certos metadados também foi reduzida de um ano para seis meses antes da aprovação na Câmara, segundo a cobertura da tramitação.

A mudança, porém, não encerrou a controvérsia. Apple e Meta já haviam alertado que poderes amplos, ordens sigilosas e requisitos técnicos poderiam criar caminhos para enfraquecer sistemas seguros. O governo rejeita essa leitura e diz que o projeto não exige vulnerabilidades sistêmicas.

Por que a Psiphon vê um problema diferente

A Psiphon nasceu em 2006 como projeto do Citizen Lab e hoje informa cerca de 20 milhões de usuários mensais. Sua tecnologia ajuda pessoas em países com bloqueios estatais a alcançar a internet aberta. A própria política de privacidade identifica a empresa como uma corporação canadense sediada em Ontário.

O ponto central de sua objeção não é apenas quem possui uma chave de criptografia. A empresa publica o código de sua plataforma. Se fosse obrigada a criar uma capacidade de acesso e simultaneamente mantê-la em segredo, pesquisadores e governos hostis poderiam encontrar a alteração. Para a Psiphon, uma porta secreta em código público deixaria de ser secreta e se tornaria uma vulnerabilidade publicada.

Esse conflito também apareceu no debate do Senado, no qual parlamentares citaram Psiphon, Signal e Mozilla Firefox como exemplos de projetos de código aberto que podem enfrentar dificuldades para cumprir o texto. Senadores reconheceram que definições amplas de provedores, escala empresarial e efeitos sobre criptografia ainda exigem exame detalhado.

O que muda para usuários

No curto prazo, nada muda no funcionamento de Signal, Psiphon ou VPNs no Canadá: o Bill C-22 ainda não é lei. A consequência imediata é regulatória. O Senado precisa decidir se a proteção à descriptografia resolve apenas a posse das chaves ou se também impede ordens que alterem a arquitetura dos serviços.

A inferência editorial é que o caso canadense mede algo mais amplo: se um país pode exigir capacidade de acesso sem transformar transparência técnica em risco. Para serviços proprietários, parte da implementação pode permanecer invisível. Em software aberto usado contra censura, o mesmo sigilo pode ser tecnicamente impraticável e prejudicar usuários fora do Canadá. O resultado dependerá do texto final, de seus regulamentos e da supervisão aplicada às ordens, não apenas da intenção declarada por governo ou empresas.

R42 / FONTES CONSULTADAS

Referências usadas para verificar fatos e contextualizar esta matéria.

  1. FONTE PRIMÁRIA
  2. FONTE PRIMÁRIA
  3. Lawful access

    Government of Canada

    FONTE PRIMÁRIA
  4. FONTE PRIMÁRIA
  5. C-22 (45-1) — LEGISinfo

    Parliament of Canada

    FONTE PRIMÁRIA
  6. FONTE PRIMÁRIA

Texto de

Gabriel Silva

Autor creditado desta matéria. Consulte o perfil para ver outras publicações.

R42 / FAQ

O Bill C-22 já virou lei no Canadá?

Não. Em 17 de outubro de 2026, o projeto estava na segunda leitura no Senado. Ele ainda precisa concluir a tramitação parlamentar e receber sanção antes de entrar em vigor.

O projeto obriga empresas a quebrar criptografia ponta a ponta?

O governo afirma que não. Uma emenda diz que um provedor não pode ser obrigado a descriptografar informações se não forneceu a criptografia ou não possui os meios necessários. Empresas e especialistas, porém, argumentam que outras obrigações técnicas do texto ainda podem enfraquecer arquiteturas seguras.

Psiphon e Signal já deixaram o Canadá?

Não. Psiphon disse ter iniciado planos de contingência para transferir operações se o projeto for aprovado sem mudanças. Signal afirmou que deixaria um mercado antes de alterar seu serviço para vigiar usuários. São alertas condicionais, não retiradas concluídas.

Por que software aberto é importante nesse debate?

Em projetos abertos, alterações relevantes podem ser examinadas publicamente. A Psiphon argumenta que uma capacidade de acesso escondida não permaneceria secreta em seu código e se transformaria em uma vulnerabilidade conhecida, afetando a confiança de usuários que contornam censura.

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